O saque é o golpe que inaugura o ponto, impõe ritmo, cria vantagem e, muitas vezes, decide partidas inteiras. No tênis moderno, ele não é apenas uma formalidade para colocar a bola em jogo. Ele virou uma ferramenta de domínio. Em níveis altos, um bom saque encurta trocas, aumenta a pressão no adversário e ajuda a controlar o placar desde o primeiro movimento. Mas existe um preço: o saque também é, provavelmente, o gesto mais exigente do tênis para o corpo.
Foi exatamente isso que um novo artigo de revisão procurou organizar. O estudo “Tennis Serve Biomechanics, Joint Load Mechanics and Overuse Injuries: A Narrative Review” foi publicado em Abril de 2026 no periódico Sports Medicine.
Em tom direto: os autores reuniram o que a ciência já sabe sobre uma pergunta que interessa a atletas, treinadores, pais, fisioterapeutas e médicos do esporte. O que aumenta a carga nas articulações durante o saque e, por consequência, pode elevar o risco de lesões por sobrecarga?
A resposta é mais complexa do que parece. Não existe um único vilão. O risco cresce quando técnica, sequência de movimento, fadiga, tipo de raquete e até condições de treino se combinam de forma ruim. E a revisão mostra algo importante: em vários casos, o corpo passa a sofrer mais sem que isso traga ganho real de performance. Em outras palavras, o atleta paga mais caro biomecanicamente e nem sempre recebe mais velocidade, mais precisão ou mais eficiência em troca.
Por que esse tema importa tanto
O próprio artigo abre com números que ajudam a dimensionar o peso do saque no tênis atual. Jogadores profissionais homens e mulheres podem gerar velocidades de bola por volta de 53 m/s e 44 m/s, respectivamente. Convertendo para uma medida mais familiar, isso significa aproximadamente 190,8 km/h e 158,4 km/h. Além da velocidade, há alta rotação de bola, com taxas entre 127 e 337 rad/s .
Esses números não são detalhe. Eles mostram que o saque é um movimento explosivo, preciso, repetido muitas vezes e feito no limite. Em partidas profissionais, ele representa 21% a 25% de todos os golpes do jogo, e um atleta pode executar algo entre 90 e 160 saques por partida . No tênis em cadeira de rodas, o saque pode ser ainda mais decisivo: mais de 40% dos pontos podem terminar em um ou dois golpes .
O problema é que toda essa eficiência esportiva vem acompanhada de grande exigência mecânica. Uma pesquisa de dois anos com 2.633 tenistas citada na revisão mostrou que 25% deles identificaram o saque como o golpe mais cansativo e mais associado a lesões . E estudos epidemiológicos com tenistas da NCAA, entre 2014 e 2019, mostraram que o saque respondeu por 10,3% a 12,0% das lesões relatadas, acima de golpes como forehand, backhand, smash e drop shot .
É aí que a discussão sai do desempenho e entra na saúde.

O que esse estudo revisou, exatamente
Este não é um ensaio clínico nem um estudo com um único grupo de atletas. Trata-se de uma revisão narrativa, isto é, um trabalho que sintetiza o conhecimento disponível sobre um tema. Os autores pesquisaram literatura em PubMed, Google Scholar, ScienceDirect e SPORTDiscus, buscando trabalhos publicados desde 1980, em inglês ou francês, que avaliassem a biomecânica do saque por captura 3D de movimento ou análise de vídeo, com medição de forças, momentos articulares e, em alguns casos, acompanhamento de lesões .
No fim, a revisão reuniu 17 estudos e também incorporou dados de 2 teses de doutorado que preenchiam os critérios de inclusão . Os autores organizaram esse material em sete grandes temas:
- sexo;
- nível técnico;
- fatores pathomechanical, ou seja, falhas técnicas que aumentam carga sem melhorar o saque;
- tipo de saque;
- tênis em cadeira de rodas;
- fadiga;
- ambiente, incluindo raquete e condições de prática .
Esse desenho já diz muito sobre o estado da ciência: ainda são poucos estudos, muitos deles com amostras pequenas, e a maior parte foi feita com homens experientes, sem deficiência, quase sempre analisando apenas o primeiro saque chapado . Isso limita o alcance das conclusões.
Antes de falar de lesão, é preciso entender “carga mecânica”
Um dos méritos do artigo é explicar que lesões por sobrecarga não aparecem do nada. Elas são o resultado de forças repetidas que o corpo tolera por um tempo, mas que, se passam de certo limite ou se se acumulam demais, começam a produzir microtraumas.
Em linguagem simples: sempre que o tenista saca, ombro, cotovelo, punho e coluna recebem uma combinação de tração, compressão, cisalhamento e torção. Uma vez ou outra, o corpo aguenta. Centenas e milhares de repetições, feitas com técnica ruim, fadiga, má escolha de equipamento ou calendário pesado, podem abrir caminho para dor e lesão .
A revisão relembra que, em esportes de arremesso e golpe acima da cabeça, a relação entre carga articular elevada e risco de lesão já vinha sendo apontada antes. Em beisebol, por exemplo, um estudo citado mostrou que, para cada 1 newton de aumento na força proximal do ombro, a probabilidade de dor no ombro aumentava 4,6% em jovens arremessadores. No tênis, outro trabalho com 20 jogadores masculinos de elite, acompanhados por duas temporadas, encontrou um dado marcante: 7 dos 9 picos de carga articular analisados no saque foram significativamente maiores no grupo lesionado do que no grupo não lesionado .
Esse é um ponto-chave. A revisão não diz apenas que o saque é exigente. Ela mostra que há sinais biomecânicos mensuráveis que se associam a maior risco.
O primeiro grande achado: nem sempre o mais forte é o mais protegido
A intuição de muita gente diria que o profissional, por sacar mais forte, deveria sofrer mais. Mas um dos estudos resumidos na revisão sugere algo diferente.
Comparando 11 profissionais com 7 jogadores avançados, Martin e colegas observaram que os atletas avançados apresentavam forças mais altas no ombro e no cotovelo em momentos específicos do saque, enquanto os profissionais geravam bolas mais rápidas . Em outras palavras, os profissionais pareciam mais eficientes: conseguiam performance superior sem elevar do mesmo modo certas cargas articulares.
Essa é uma das mensagens mais interessantes do artigo. Técnica refinada não é apenas questão de estética ou rendimento. Ela também pode significar economia mecânica.
Os autores interpretam que os jogadores avançados talvez usem estratégias menos eficientes e, por isso, “compensem” com maior sobrecarga em estruturas do ombro e do cotovelo. É como se o corpo precisasse fazer mais força local para entregar um resultado global que ainda assim é menor.
O segundo achado: alguns erros técnicos custam caro
A revisão usa o termo “pathomechanical factors” para se referir a padrões de movimento que aumentam a carga sem trazer ganho correspondente de velocidade. Esse talvez seja o trecho mais útil para quem está em quadra.
1. Técnica de base dos pés: pouca diferença no risco
Entre jogadores juniores experientes, estudos comparando foot-up e foot-back não encontraram diferenças relevantes nas cargas de ombro, cotovelo e punho . Para treinadores, isso é valioso. Significa que a escolha entre essas duas bases pode seguir critérios técnicos e individuais sem a ideia de que uma delas, sozinha, seja mais “perigosa”.
2. Pouco uso das pernas pode reduzir eficiência sem aliviar o ombro
Outro estudo mostrou que um saque com leg drive mínimo diminuiu a velocidade da bola, mas não reduziu a carga no ombro . Traduzindo: quando o atleta usa menos as pernas, ele não necessariamente protege a articulação. Pode apenas perder performance.
Isso desmonta um raciocínio comum. Muita gente imagina que simplificar o gesto sempre torna o movimento mais seguro. Nem sempre. Às vezes, o que acontece é o oposto: o corpo perde ajuda das pernas e do tronco, e o braço segue pagando a conta.
3. Flexão insuficiente do joelho pode aumentar a sobrecarga
Jogadores com menos de 10 graus de flexão do joelho dianteiro no momento de máxima rotação externa do ombro apresentaram momentos mais altos de rotação interna do ombro e de varo e flexão do cotovelo, mesmo com velocidade de bola semelhante à de outros atletas . Mais uma vez, aparece a lógica central da revisão: maior custo articular sem maior benefício esportivo.
4. Backswing abreviado: suspeita existe, mas a evidência ainda é fraca
A comparação entre backswing completo e abreviado mostrou velocidades de bola semelhantes. Houve apenas uma tendência a maior força anterior no ombro no backswing abreviado, com p = 0,05 . Isso merece atenção, mas não autoriza conclusões definitivas. Os próprios autores da revisão consideram que a diferença encontrada foi pequena para sustentar uma condenação biomecânica do backswing abreviado.
5. O “waiter’s serve” entra como sinal de alerta real
A chamada postura de “bandeja” ou waiter’s serve, muito comum em iniciantes e jovens, foi um dos fatores mais claramente associados a maior carga. Em um estudo com 18 jogadores juniores de elite, quem apresentava esse padrão teve momentos mais altos de rotação interna do ombro, maior varo de cotovelo e mais forças no punho, sem ganhar velocidade de bola .
A revisão destaca, porém, uma nuance importante. No seguimento epidemiológico de 12 meses, não houve diferença estatística significativa na incidência total ou gravidade das lesões entre os grupos. Houve apenas uma tendência de maior propensão a lesões no cotovelo entre quem usava esse padrão . Ou seja: a biomecânica aponta risco teórico plausível, mas a prova epidemiológica ainda é limitada.
Mesmo assim, para quem ensina tênis, o recado é claro. O “waiter’s serve” não parece um detalhe estético. Ele pode ser um marcador de ineficiência e de maior carga.
O terceiro achado: o timing do corpo importa tanto quanto a forma
Talvez a parte mais sofisticada e fascinante da revisão esteja na discussão sobre timing. Não basta mover bem os segmentos. É preciso movê-los na hora certa.
Em um estudo com 20 jogadores masculinos experientes, acompanhados por duas temporadas, os autores encontraram 12 lesões por sobrecarga em 11 atletas. Os lesionados mantinham o braço em abdução horizontal por tempo excessivo durante a fase de rotação externa do ombro, um padrão descrito como hyperangulation. Esse detalhe temporal estava ligado a aumentos expressivos de carga: +13% na força anterior do ombro, +29% na força inferior do ombro, +15% na força medial do cotovelo, +27% no momento de abdução horizontal do ombro e +14% no momento de flexão do cotovelo. Além disso, esses jogadores ainda sacavam mais devagar, com redução de 11,5 km/h na velocidade da bola .
É difícil imaginar exemplo mais claro de ineficiência. O atleta sofre mais e rende menos.
Outro resultado relevante apareceu quando os autores analisaram a sequência de rotação do tronco, do tórax e da pelve. Quanto mais tarde surgiam os picos de velocidade angular nesses segmentos, maiores eram as cargas no membro superior e menor a velocidade final da bola . Em termos simples, quando a energia não “viaja” bem pelo corpo, do chão até a raquete, o braço tende a virar o setor de compensação.
O quarto achado: boa transferência de energia parece proteger
A revisão também discute um conceito que deveria estar em toda conversa sobre saque: qualidade do fluxo de energia.
Em um estudo com 19 atletas de alto nível, essa qualidade foi estimada pela relação entre a energia que saía do tronco na preparação e a energia que chegava à mão e à raquete na aceleração. O resultado foi forte. Jogadores não lesionados apresentaram um indicador médio de 88,1% ± 16,9%, enquanto os lesionados ficaram em 71,1% ± 15,0% .
Não é uma diferença pequena. E ela conversa com a sensação que técnicos experientes costumam descrever de forma intuitiva: alguns jogadores parecem “deixar a bola sair” do corpo inteiro, enquanto outros batem mais “com o braço”. O estudo ajuda a colocar números nessa percepção.
A mensagem prática é poderosa. Quanto melhor a energia flui pelo corpo, maior tende a ser a velocidade da bola e menor a sobrecarga no braço.
O quinto achado: o tipo de saque ainda divide a literatura
Entre treinadores, existe uma crença antiga de que o kick serve é mais agressivo para o corpo, especialmente para a coluna lombar. A revisão mostra que essa discussão está longe de ter fim.
Um estudo com sete jogadores avançados encontrou maior força e maior momento total na lombar no kick serve do que no saque chapado . Isso reforça a ideia de que esse tipo de saque possa exigir mais da região lombar. Mas outro trabalho, com adolescentes, relatou o contrário em um aspecto específico: o saque chapado gerou maior momento de flexão lombar do que o kick durante a fase de aceleração para frente .
Nos ombros, a literatura também não fala com uma única voz. Um estudo observou força posterior de ombro maior no kick serve; outro não encontrou diferenças relevantes entre kick e flat, salvo algumas tendências .
O que fazer com isso? Ter prudência. A revisão é firme em dizer que o impacto relativo entre kick, slice e flat ainda permanece em debate. Não dá para transformar uma hipótese em regra definitiva.
O sexto achado: fadiga muda o saque, mas não de forma simples
Em um estudo com oito tenistas avançados, avaliados antes, no meio e depois de uma partida de 3 horas, houve queda significativa na velocidade da bola e em todas as cargas de ombro do início ao fim. No cotovelo, apenas 4 de 6 cargas diminuíram; no punho, 3 de 5 .
Esse resultado parece contraintuitivo. Muita gente imaginaria que a fadiga necessariamente aumentaria a carga. Mas o que os autores propõem é mais sofisticado: o corpo pode adotar mecanismos compensatórios de proteção, reduzindo algumas forças ao longo do jogo, ainda que isso venha acompanhado de queda de performance .
A revisão também lembra que, em torneios juvenis, aumenta a taxa de retirada médica depois da quarta partida . Isso sugere que a carga acumulada ao longo de um evento pode ser tão importante quanto a carga de um saque isolado.
O sétimo achado: a raquete importa mais do que muitos imaginam
Essa é uma parte excelente do artigo porque sai da técnica pura e entra no ambiente de prática.
Em adultos
Estudos resumidos na revisão indicam que, entre adultos intermediários e avançados, raquetes com maior momento de inércia e balanço mais alto podem aumentar a carga no membro superior durante o saque .
Um trabalho com cinco jogadores avançados mostrou que uma raquete mais leve, mas com balanço e momento de inércia polar mais altos, aumentou momentos no ombro sem melhorar a velocidade da bola . Outro estudo, com oito jogadores competitivos, encontrou maiores momentos de ombro e maiores forças em punho, cotovelo e ombro com raquete head-heavy, enquanto a head-light produziu as menores cargas . Em mulheres experientes, um estudo pequeno com quatro atletas mostrou que maior swingweight veio acompanhado de menor velocidade de cabeça da raquete e maior força no punho .
Talvez o dado mais didático seja o seguinte: uma raquete que parece “potente” ou “estável” não necessariamente é a mais amigável para o braço.
Em crianças e adolescentes
Aqui a revisão traz um alerta quase pedagógico. Em jovens com média de 9,9 anos, comparar raquetes de 23, 25 e 27 polegadas mostrou que a raquete adulta de 27 polegadas elevou momentos de ombro e cotovelo sem ganho de performance .
Essa talvez seja uma das conclusões mais práticas de todo o artigo. Não há pressa para “subir” a criança para a raquete de adulto. A mudança precoce pode apenas aumentar a sobrecarga.
Outra pesquisa com 10 jogadores jovens comparou distâncias menores de saque e redes mais baixas, em configurações de quadra “red”, “orange” e “green”. O resultado foi elegante: as cargas articulares ficaram parecidas, mas a velocidade da bola foi maior nas condições mais adaptadas ao tamanho da criança . Isso reforça a ideia de que ajustar o ambiente pode melhorar eficiência sem aumentar o risco.
O que a tabela-resumo do artigo deixa muito claro
Um dos pontos mais úteis da revisão é a tabela final, que associa cada tipo de carga articular a possíveis lesões e aos fatores que parecem aumentá-la. O quadro mostra, por exemplo, que:
- força anterior do ombro pode se relacionar a instabilidade e lesões do labrum;
- rotação interna do ombro pode se associar a SLAP e impacto;
- varo/valgo do cotovelo conversa com lesões ligamentares e epicondilites;
- forças e momentos lombares se associam a espondilólise, degeneração discal e dor lombar;
- forças no punho podem se ligar a tenossinovites e lesões do complexo fibrocartilaginoso triangular .
Mais importante ainda: a tabela mostra que alguns fatores aparecem repetidamente, como nível técnico, qualidade do fluxo de energia, waiter’s serve, timing do tronco, fadiga e características da raquete. Já outros, como a simples técnica de base dos pés, não parecem ter impacto relevante na carga articular .
O que este artigo muda na prática
Lendo essa revisão como se os autores estivessem sendo entrevistados, a mensagem central soaria assim:
“Não estamos dizendo que o saque machuca por definição. Estamos dizendo que o saque exige muito do corpo e que parte desse custo pode ser reduzida quando a técnica é eficiente, a energia flui bem, o equipamento é adequado e o treino respeita as características do jogador.”
Esse é o espírito do artigo.
Para treinadores, a lição é evitar a obsessão com velocidade a qualquer preço. Um saque bonito, coordenado e reproduzível talvez seja mais valioso do que um gesto explosivo que cobra caro do ombro e do cotovelo.
Para pais de atletas jovens, a revisão envia dois recados fortes. O primeiro: cuidado com a pressa de usar raquete de adulto. O segundo: quadra, rede e contexto devem ser adaptados ao estágio da criança, não o contrário.
Para fisioterapeutas e médicos, o artigo convida a olhar além da dor localizada. Um ombro que reclama pode ser apenas a ponta final de um problema de sequência de movimento, timing ou equipamento.
Para o próprio atleta, a notícia mais importante talvez seja esta: sentir que está sacando “forte com o braço” não é sinal de eficiência; pode ser sinal de compensação.
Comparando com outras referências
Mesmo sem busca externa em tempo real, o próprio estudo já permite uma comparação interessante com outras fontes científicas.
A revisão de Fu et al., em Current Reviews in Musculoskeletal Medicine (2018), reforça que lesões no tênis têm forte componente de sobrecarga e que ombro, cotovelo e punho estão entre os segmentos mais exigidos. Isso está em linha direta com a síntese de Martin e colegas.
Link: https://doi.org/10.1007/s12178-018-9452-9
Os estudos de Robison et al. em homens e mulheres da NCAA, ambos publicados em Journal of Athletic Training em 2021, sustentam a ideia de que o saque tem papel desproporcional na distribuição das lesões do tênis universitário.
Mulheres: https://doi.org/10.4085/1062-6050-529-20
Homens: https://doi.org/10.4085/1062-6050-459-20
O estudo SMASH Cohort, de Johansson et al. em Sports Health (2022), amplia essa leitura ao mostrar associação entre picos de carga externa de treino e lesões de ombro em adolescentes competitivos. Isso não fala só do gesto do saque, mas do contexto em que ele se repete.
Link: https://doi.org/10.1177/19417381211051643
A revisão de Stuelcken et al. sobre lesões de punho em tenistas, publicada em Sports Medicine (2017), ajuda a entender por que a discussão sobre forças no punho, momento de desvio radial e especificações da raquete não é periférica.
Link: https://doi.org/10.1007/s40279-016-0630-x
O trabalho de Touzard et al. em Frontiers in Psychology (2023), citado pela revisão, reforça de forma muito prática a ideia de que crianças não devem ser apressadas para a raquete maior.
Link: https://doi.org/10.3389/fpsyg.2023.1104146
O estudo de Fadier et al. em International Journal of Sports Science & Coaching (2022) soma evidência ao valor da adaptação da quadra para jovens, mostrando que mudar distância e altura da rede pode melhorar a eficiência do saque sem elevar a carga.
Link: https://doi.org/10.1177/17479541221114106
As limitações que impedem exageros
O artigo é bom justamente porque não vende certezas falsas. Os autores reconhecem limites importantes.
Primeiro, é uma revisão narrativa, não uma revisão sistemática com meta-análise. Segundo, muitos estudos têm amostras pequenas. Terceiro, há grande variação na forma de medir e reportar as cargas articulares, o que dificulta comparar resultados entre pesquisas. E, por fim, apenas uma parte dos trabalhos uniu análise biomecânica com seguimento prospectivo de lesões; em muitos casos, a relação entre carga e lesão ainda é teórica ou inferida a partir de plausibilidade biomecânica .
Isso não enfraquece o artigo. Só mostra maturidade científica. A revisão não diz “está tudo resolvido”. Ela diz: já sabemos bastante para mudar a prática, mas ainda não sabemos tudo.
Conclusão
O grande valor desta revisão está em desmontar uma visão simplista do saque. O problema não é apenas sacar muito. O problema é sacar muitas vezes, com técnica ineficiente, sequência ruim, fadiga acumulada, equipamento mal escolhido e, em alguns casos, sem respeitar estágio de desenvolvimento ou contexto de treino.
A ciência reunida por Martin e colegas aponta um caminho claro: o saque mais seguro não é necessariamente o mais contido, e sim o mais eficiente. Um saque em que pernas, tronco, ombro, cotovelo, punho e raquete trabalham em sequência, sem transformar o braço em um “pagador solitário da conta”.
Para quem vive o tênis de perto, essa é uma mensagem poderosa. Desempenho e prevenção de lesão não precisam ser adversários. Em muitos casos, a mesma técnica que melhora a transferência de energia e organiza o movimento é justamente a técnica que poupa articulações.
E talvez essa seja a frase mais importante deixada pelo estudo: quando o saque fica mais inteligente, o corpo costuma agradecer.
Referência
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