Se você tem artrose no joelho e ouviu a vida inteira que a solução é “fortalecer, fortalecer, fortalecer”, este texto é para você.
Não porque fortalecer seja ruim. Não é.
Mas porque um estudo grande, publicado no BMJ e aceito em 16 de agosto de 2025, analisou 217 estudos clínicos randomizados, com 15.684 pessoas com artrose de joelho, e trouxe uma mensagem importante: entre os vários tipos de exercício, o aeróbico foi o que teve o melhor resultado global para dor, função, marcha e qualidade de vida.
Em outras palavras: o problema não é fazer fortalecimento. O problema é achar que só fortalecimento resolve tudo.
Você não precisa parar de se exercitar; você precisa parar de tratar o fortalecimento como se ele fosse a única resposta.
A artrose não machuca só o joelho. Ela vai diminuindo a vida.
Quem tem artrose de joelho sabe disso na prática.
A dor pode até começar no joelho, mas ela não fica só ali. Aos poucos, a pessoa passa a andar menos, evita escadas, para de fazer programas, dorme pior, sente medo de piorar e vai perdendo confiança no próprio corpo.
Muita gente chega para mim dizendo:
“Doutor, eu tenho medo de me mexer e gastar mais o joelho.”
Esse medo é compreensível, mas ele costuma piorar o problema. Quando a pessoa se movimenta menos, perde condicionamento, ganha mais rigidez, às vezes ganha peso, sente mais dor e entra num círculo ruim.
É por isso que o exercício é tão importante no tratamento da artrose. E é por isso também que faz tanta diferença saber qual tipo de exercício deve vir primeiro.
O que esse estudo fez
Esse trabalho do BMJ foi uma revisão sistemática com meta-análise em rede. Traduzindo para uma linguagem simples: os pesquisadores juntaram muitos estudos de boa qualidade, compararam diferentes tipos de exercício e tentaram descobrir quais funcionam melhor para quem tem artrose de joelho.
Eles avaliaram principalmente:
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dor
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função
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desempenho para caminhar
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qualidade de vida
E fizeram isso em três momentos:
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curto prazo, por volta de 4 semanas
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médio prazo, por volta de 12 semanas
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longo prazo, por volta de 24 semanas
Os exercícios comparados foram, de forma geral:
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aeróbico
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fortalecimento
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flexibilidade
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neuromotor
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mente-corpo
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exercício misto
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controle, ou seja, comparação com quem não fez aquele tipo de exercício
O resultado mais importante.
O exercício aeróbico foi o que mais consistentemente apareceu como melhor opção no conjunto da obra.
No estudo, ele mostrou melhora importante da dor no curto e no médio prazo, melhora da função no médio prazo, melhora da marcha no médio prazo e melhora da qualidade de vida no curto prazo. No ranking geral das modalidades, foi o que teve a melhor performance global.
E aqui está o ponto que eu gostaria que todo paciente entendesse:
isso não quer dizer que fortalecimento não funciona.
Quer dizer que, quando comparamos tudo, o aeróbico parece ser a melhor base de tratamento.
Então eu devo parar de fortalecer?
Não. E eu faço questão de reforçar isso.
O que o estudo mostra é que o fortalecimento ajuda, especialmente para melhorar a função no médio prazo. Aos 12 semanas, ele teve um bom resultado para função.
Mas o aeróbico foi melhor no resultado geral.
Então o raciocínio mais correto é este:
-
fortalecimento continua sendo útil
-
ele não deve ser tratado como protagonista absoluto
-
o exercício aeróbico deve ser mais valorizado como primeira estratégia
O erro mais comum que eu vejo
Na prática, muita gente com artrose de joelho faz um tratamento quase inteiro baseado em exercícios localizados de força.
É miniagachamento, cadeira extensora, exercícios com elástico, elevação de perna, exercícios para quadríceps. Tudo isso pode ter seu valor. Eu não estou desmerecendo.
Mas muitas vezes o paciente não caminha de forma estruturada, não pedala, não melhora o condicionamento, não recupera a confiança para se mover, não trabalha a capacidade de sustentar atividade ao longo do dia.
E aí o tratamento fica incompleto.
É como se a pessoa treinasse uma peça do sistema, mas não o sistema inteiro.
Por que o aeróbico pode funcionar melhor
Embora esse tipo de estudo não tenha sido feito para explicar todos os mecanismos do corpo, existe uma lógica clínica por trás desse resultado.
O exercício aeróbico não melhora apenas músculo. Ele também pode ajudar em coisas muito importantes para quem tem artrose:
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diminuir a sensibilidade à dor
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melhorar o condicionamento físico
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aumentar a tolerância ao esforço
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ajudar no controle do peso
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melhorar a circulação
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melhorar o humor
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aumentar a confiança para andar
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devolver autonomia no dia a dia
Isso faz muito sentido, porque a artrose sintomática não é só um problema de “desgaste”. Ela é também um problema de dor crônica, medo de movimento, perda de condicionamento e limitação funcional.
Por isso eu costumo dizer para meus pacientes:
o joelho dói numa articulação, mas a doença afeta a pessoa inteira.
O que eu considero “aeróbico” na vida real
Muita gente ouve a palavra “aeróbico” e já pensa em corrida intensa. Não é isso.
No contexto do estudo e da prática clínica, exercício aeróbico pode incluir atividades como:
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caminhada
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bicicleta
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natação
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exercícios aquáticos
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outras atividades rítmicas e contínuas que aumentem um pouco a respiração e a frequência cardíaca
Ou seja: para muita gente, um bom programa de caminhada já pode ser um começo excelente.
E isso importa muito. Porque o melhor exercício do mundo não é o mais bonito no papel. É o que a pessoa consegue fazer com regularidade.
O fortalecimento ainda tem seu lugar
Um dado interessante do estudo mostra que, nos programas chamados de “exercício misto”, 88% incluíam fortalecimento. Isso quer dizer que o fortalecimento continua aparecendo como parte importante de muitos programas bem montados.
Esse detalhe é muito valioso.
Ele mostra que a pergunta certa não é:
“fortalecimento presta ou não presta?”
A pergunta certa é:
onde o fortalecimento entra dentro de um plano mais inteligente?
Na minha leitura, ele entra como complemento muito útil. Mas não precisa carregar sozinho a responsabilidade de tratar tudo.
O que esse estudo muda no consultório
Se eu resumisse em uma frase, seria esta:
a artrose de joelho não deve ser tratada apenas com força local; o movimento global precisa voltar para o centro do tratamento.
Isso muda a conversa com o paciente.
Em vez de eu dizer apenas “vamos fortalecer quadríceps”, eu passo a pensar junto com a pessoa:
-
como colocar mais movimento regular na rotina
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como construir um plano que ela consiga manter
-
como melhorar não só força, mas também resistência, marcha e confiança
-
como usar fortalecimento sem esquecer do aeróbico
Essa mudança parece pequena, mas ela muda o resultado.
E os números? O que eles significam para o paciente comum?
No artigo, os autores mostram que o exercício aeróbico teve melhora importante em vários desfechos, com evidência de qualidade moderada em muitos deles. O fortalecimento também mostrou benefício, principalmente para função no médio prazo.
O paciente não precisa decorar esses números. O que importa é entender a mensagem prática:
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o aeróbico foi melhor no conjunto
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o fortalecimento ajudou, mas não liderou
-
exercício continua sendo parte central do tratamento
-
o ideal é uma estratégia mais ampla
Isso é seguro?
De modo geral, o estudo não encontrou uma diferença clara de segurança entre os tipos de exercício e o grupo controle. Os autores analisaram os eventos adversos relatados e não viram um sinal claro de que essas modalidades fossem mais perigosas do que não fazer exercício, embora os dados de segurança tenham sido limitados.
Isso combina com o que vejo na prática: quando o exercício é bem indicado, adaptado ao nível do paciente e feito com progressão sensata, ele costuma ser uma ferramenta segura e muito útil.
O risco maior, muitas vezes, é o sedentarismo prolongado.
Você não precisa parar de fazer exercício. Pelo contrário. Você precisa continuar se mexendo. Mas talvez a sua estratégia precise mudar. Em vez de apostar tudo em fortalecer, vamos colocar o exercício aeróbico como base. Vamos fazer você caminhar melhor, tolerar mais esforço, ter menos dor, ganhar mais autonomia. E aí o fortalecimento entra junto, como parte de um plano mais completo.
Se você tem artrose de joelho, por onde começar
O começo ideal depende do seu quadro, da sua dor, da sua idade, do seu peso, do seu condicionamento e de outras doenças que você possa ter. Mas, de forma geral, eu penso assim:
Primeiro, eu tento colocar um movimento aeróbico regular e possível.
Depois, eu organizo o fortalecimento como complemento.
Também posso incluir exercícios de mobilidade, equilíbrio ou controle motor, dependendo da necessidade.
O importante é que o tratamento não seja uma coleção de exercícios soltos. Ele precisa fazer sentido para a vida real da pessoa.
Porque adesão importa muito. Um plano perfeito no papel e abandonado em duas semanas vale menos do que um plano simples, possível e mantido.
A mensagem que eu gostaria que você guardasse
Se você leu até aqui, guarde isto:
ter artrose no joelho não é motivo para parar de se mover.
Mas pode ser motivo para parar de apostar em uma ideia simplificada de tratamento.
Fortalecimento continua tendo valor.
Só que ele não precisa mais ocupar sozinho o centro da cena.
O estudo do BMJ mostra que o exercício aeróbico provavelmente é a melhor modalidade para melhorar dor, função, caminhada e qualidade de vida na artrose de joelho.
Então, se eu resumisse este texto em uma frase, seria esta:
Se você tem artrose de joelho, pare de apostar apenas no fortalecimento. O exercício que mais consistentemente entregou resultado foi o aeróbico.
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