A DESCOBERTA QUE MUDA TODA NOSSA COMPREENSÃO SOBRE A DOENÇA
Você sabia que pessoas com histórico de câncer podem ter menor risco de Alzheimer?
Durante décadas, médicos observaram esse fenômeno, sem saber explicar o motivo: pacientes com histórico de câncer desenvolviam menos perda de memória devido ao mal de Alzheimer.
Isso intrigava pesquisadores do mundo inteiro. Afinal, o câncer costuma provocar inflamação, estresse físico intenso e tratamentos agressivos. Como algo assim poderia estar associado a um risco menor de demência?
Seria coincidência? Erro estatístico? Seria por que as pessoas com tumores morriam mais cedo e antes de desenvolverem os sintomas do Alzheimer ? Ou haveria um mecanismo biológico real por trás dessa relação?
Agora, um estudo publicado em 5 de fevereiro de 2026, na revista Cell (Volume 189, Issue 3), trouxe uma resposta robusta e experimental para essa questão.
O QUE OS ESTUDOS JÁ MOSTRAVAM
Antes de falarmos da nova descoberta, vale entender o que já se sabia.
Em 2020, uma grande análise publicada no JAMA Network Open reuniu dados de mais de 9,6 milhões de pessoas. O resultado mostrou que indivíduos com histórico de câncer apresentavam menos risco de desenvolver Alzheimer.
Os pesquisadores investigaram possíveis distorções estatísticas e concluíram que a associação não parecia ser apenas um erro metodológico.
Mas faltava entender o “por quê”.
A DESCOBERTA DE 2026: A PEÇA QUE FALTAVA
O estudo publicado na Cell foi o primeiro a demonstrar um mecanismo biológico claro para explicar essa relação.
Os cientistas descobriram que alguns tumores periféricos (fora do cérebro) liberam uma proteína chamada cistatina-C.
Essa proteína:
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Entra na corrente sanguínea
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Consegue atravessar a barreira que protege o cérebro
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Interage com depósitos de beta-amiloide
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Ativa uma célula de defesa cerebral chamada microglia
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Estimula a degradação de placas já existentes
Esse ponto é crucial:
Não se trata apenas de impedir novas placas.
Trata-se de ajudar o cérebro a remover placas que já estão lá.
E quando os pesquisadores bloquearam uma proteína específica chamada TREM2, o efeito protetor desapareceu completamente.
Isso mostrou que o fenômeno não era coincidência.
Era biologia.
ENTENDENDO DE FORMA SIMPLES: O QUE É A MICROGLIA?
A microglia é como a “equipe de limpeza” do cérebro.
Quando surgem resíduos ou proteínas tóxicas, ela deveria:
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Identificar o problema
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Cercar a área
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Engolir e degradar o material
No Alzheimer, esse sistema de limpeza parece falhar.
O estudo mostrou que a cistatina-C liberada pelo câncer ajuda a “reativar” essa capacidade natural de limpeza por meio da ativação do TREM2.
O QUE É TREM2 E POR QUE ELE É IMPORTANTE?
TREM2 é uma proteína presente na superfície da microglia.
Ela funciona como um sensor.
Quando ativada, envia sinais internos que permitem que a microglia:
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Tenha energia suficiente
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Sobreviva em ambiente inflamatório
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Engula placas amiloides
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Proteja os neurônios ao redor
Quando o TREM2 não funciona bem — por mutação genética, por exemplo — o risco de Alzheimer aumenta.
Ou seja:
Não é apenas a formação de placas que importa.
É a capacidade do cérebro de lidar com elas.
O PAPEL DA GENÉTICA: ONDE ENTRA O APOE4?
Outro fator importante é o gene APOE, especialmente sua variante chamada APOE4. Ele codifica a produção da Apolipoproteína E (ApoE) uma proteína envolvida no transporte de colesterol e lipídios no organismo — especialmente no cérebro.
O artigo da Cell (2022) cita trabalhos (Neuron) mostrando que TREM2 liga apolipoproteínas (incluindo APOE) e isso facilita a captação de Aβ pela microglia.
Em linguagem simples: ApoE pode funcionar como uma “ponte” para ajudar a microglia a reconhecer/engolir Aβ via TREM2.
Existem três versões principais desse gene:
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APOE2 (tende a proteger)
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APOE3 (mais comum)
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APOE4 (associada a maior risco)
Cada pessoa herda dois alelos (um de cada pai).
Possíveis combinações:
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ε3/ε3 (mais comum)
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ε3/ε4
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ε4/ε4
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ε2/ε3
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ε2/ε4
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ε2/ε2 (raro)
A variante ε4 é o maior fator genético de risco para Alzheimer tardio (não familiar precoce).
Risco relativo aproximado:
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1 cópia (ε3/ε4): risco 2–3 vezes maior
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2 cópias (ε4/ε4): risco 8–12 vezes maior
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ε2: parece ter efeito protetor
Probabilidades reais por idade
Os números variam por estudo e população, mas estimativas aproximadas. Quem tem uma cópia do APOE4 tem risco maior de desenvolver Alzheimer ao longo da vida. Quem tem duas cópias tem risco ainda maior.
Sem ApoE4 (ε3/ε3)
Risco ao longo da vida: ~10–15%
1 cópia ε4
Risco ao longo da vida: ~20–30%
2 cópias ε4
Risco ao longo da vida: ~50–60%
POR QUE APOE4 AUMENTA O RISCO?
As principais hipóteses científicas:
Reduz depuração de beta-amiloide
ApoE4 tem menor eficiência na remoção de Aβ.
Aumenta inflamação microglial
Interage com TREM2 e modula resposta imune cerebral.
Aumenta permeabilidade da barreira hematoencefálica
Disfunção vascular cerebral é mais comum em portadores.
Disfunção mitocondrial
Maior estresse oxidativo.
Maior deposição de amiloide mais cedo
Portadores ε4 acumulam placas 10–15 anos antes.
Mas é fundamental entender:
ApoE4 não é sentença. É aumento de probabilidade.
Estilo de vida, saúde vascular e inflamação fazem enorme diferença.
E há evidências de que o APOE4 também influencia como a microglia reage às placas — o que conecta essa variante genética ao funcionamento do TREM2.
ISSO MUDA A FORMA COMO ENXERGAMOS O ALZHEIMER
Durante anos, o foco principal do tratamento foi remover placas com anticorpos.
Essas terapias conseguem reduzir a quantidade de amiloide, mas apresentam:
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Benefício cognitivo modesto
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Alto custo
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Risco de efeitos adversos
O estudo de 2026 sugere uma abordagem diferente:
Em vez de apenas retirar placas artificialmente, talvez possamos restaurar a capacidade natural do cérebro de fazer isso sozinho.
Essa mudança de perspectiva é profunda.
E A CISTATINA-C? É POSSÍVEL SUPLEMENTAR?
Essa é uma pergunta comum.
Hoje, não existe suplemento aprovado de cistatina-C.
Ela não é vitamina nem hormônio comum.
É uma proteína complexa que atua em diversos sistemas do corpo.
Inclusive, níveis elevados no sangue são usados como marcador de função renal e podem estar associados a risco cardiovascular.
Ou seja:
Aumentar cistatina-C por conta própria não é recomendável.
A ciência ainda precisa entender qual forma molecular exata, em qual dose e em qual contexto ela atua de forma protetora.
Provavelmente, no futuro, veremos terapias direcionadas que ativem o TREM2 de maneira controlada — e não simplesmente suplementação indiscriminada.
O QUE VOCÊ PODE FAZER HOJE
Enquanto terapias inovadoras estão sendo estudadas, a ciência já sabe que algumas estratégias reduzem risco real de declínio cognitivo:
✔ Exercício físico regular
✔ Controle rigoroso da pressão arterial
✔ Controle do açúcar no sangue
✔ Alimentação no padrão mediterrâneo
✔ Sono adequado
✔ Estímulo cognitivo contínuo
Estudos mostram que mesmo pessoas com predisposição genética respondem positivamente a essas intervenções.
UMA NOVA ERA: A NEUROIMUNOLOGIA
O grande impacto dessa descoberta é mostrar que:
O cérebro não está isolado do resto do corpo.
Sistema imune, câncer, metabolismo e envelhecimento estão interligados.
Talvez o Alzheimer não seja apenas uma doença de acúmulo de placas.
Talvez seja, em grande parte, uma falha na capacidade do cérebro de limpar e responder ao dano.
Se essa linha de pesquisa se confirmar em humanos, estaremos diante de uma das maiores mudanças na história do tratamento do Alzheimer.
CONCLUSÃO
O paradoxo entre câncer e Alzheimer finalmente ganhou explicação molecular.
A proteína cistatina-C, liberada por tumores, pode ativar um mecanismo natural de defesa cerebral por meio do TREM2, estimulando a remoção de placas amiloides, e isso abre uma nova perspectiva terapêutica:
Degradar placas já existentes.
Restaurar função microglial.
Modular comunicação sistêmica.
Se confirmado em humanos, isso pode representar uma das maiores revoluções no tratamento do Alzheimer nas próximas décadas.
Ainda estamos no início dessa história.
Mas a mensagem mais importante permanece:
Genética influencia.
Inflamação influencia.
Imunidade cerebral influencia.
E o risco não é destino.
A ciência está avançando — e talvez estejamos mais próximos de entender como proteger o cérebro de forma inteligente e personalizada.
REFERÊNCIAS
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Li X, Tang X, Zeng J, et al. Peripheral cancer attenuates amyloid pathology in Alzheimer’s disease via cystatin-c activation of TREM2. Cell. 2026;189(3):853-871.e31.
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Ospina-Romero M, Glymour MM, Hayes-Larson E, et al. Association Between Alzheimer Disease and Cancer. JAMA Netw Open. 2020;3(11):e2025515.
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Wang S, et al. TREM2 drives microglia response to amyloid-β. Cell. 2022;185:4153–4169.
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McQuade A, et al. TREM2-knockout microglia responses. Nat Commun. 2020;11:5370.
