Tratar a dor é prioridade.
Após mais de 15 anos atuando em serviços de resgate, é impossível não me lembrar daquela cena.
Era feriado de Carnaval… Tudo estava tranquilo no plantão. Enquanto isso, as estrada cheias de famílias viajando, crianças animadas no banco de trás, malas e planos para alguns dias de descanso. Mas de repente, o rádio da base aeromédica rompeu o clima típico de feriado:
Colisão grave. Possíveis múltiplas vítimas.
Decolamos imediatamente!
Do alto, a cena já indicava a gravidade. Um veículo capotado no acostamento, trânsito interrompido, pessoas ao redor tentando ajudar. Quando pousamos e nos aproximamos, encontramos uma família inteira consciente — mas em sofrimento intenso.
Pai, mãe e duas crianças.
Todos vivos.
Todos com dor.
A mãe segurava a perna visivelmente deformada, o rosto marcado por lágrimas que misturavam medo e dor.
O pai tentava manter serenidade para proteger os filhos, mas a respiração curta denunciava sofrimento torácico importante.
Uma das crianças chorava cada vez que tentávamos avaliá-la.
Naquele momento, ficou evidente para mim algo que já vinha aprendendo ao longo dos anos no resgate:
A dor dominava aquela cena.
Não era apenas um sintoma.
Era o centro da experiência daquela família.
O momento que transforma a forma de cuidar
Enquanto a equipe iniciava os protocolos de avaliação — via aérea, respiração, circulação — eu sabia que algo precisava acontecer imediatamente.
Iniciar analgesia ainda na cena.
Antes do transporte.
Antes da chegada ao hospital.
Antes mesmo de termos um diagnóstico definitivo.
E foi isso que me nesinou a perceber uma mudança quase instantânea.
A respiração da mãe se acalmou.
O pai começou a responder com mais clareza.
A criança reduziu o choro e passou a cooperar.
Nada mágico.
Nada exagerado.
Apenas a dor sendo tratada.
E quando a dor diminui, o corpo reorganiza-se. A mente estabiliza. A cooperação melhora. O atendimento flui com mais segurança.
Foi ali que consolidei uma convicção que levo comigo até hoje:
Tratar a dor é prioridade.
Por que a dor precisa ser tratada imediatamente?
Durante muito tempo, criou-se uma cultura no atendimento pré-hospitalar ao trauma que colocava a analgesia como uma etapa secundária.
Primeiro se estabiliza.
Depois de tudo pronto, aí sim, tratamos a dor.
Mas e na prática, é possível estabilizar alguém que sente dor ?
Hoje a ciência mostra que essa lógica estava incompleta.
A dor intensa ativa no organismo uma resposta poderosa:
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Aumento da frequência cardíaca
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Dificuldade de cooperação
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Maior consumo de oxigênio
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Liberação de hormônios do estresse
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Agitação e ansiedade
Em um paciente que já está enfrentando hemorragia, fraturas ou contusões, essa sobrecarga pode agravar ainda mais o quadro. Aliviar a dor reduz essa resposta. E isso impacta diretamente na estabilidade e na sobrevivência.
A experiência que moldou minha forma de avaliar pacientes
Depois de vários atendimentos semelhantes ao longo desses anos — minha forma de avaliar pacientes com dor foi construída.
Hoje, quando atendo alguém em sofrimento, penso em dois eixos inseparáveis:
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Qual é a causa da dor?
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Como a dor e o sofrimento está impactando o organismo dessa pessoa neste momento?
Não basta tratar a lesão.
É indispensável aliviar o sofrimento.
Porque uma dor não tratada desde o início pode:
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Se tornar uma experiência traumática
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Se tornar crônica
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Influenciar negativamente a recuperação
Não é apenas sobre manter os sinais vitais, mas para oferecer as melhores condições possíveis para recuperação integral.
O que a ciência reforça
Um editorial publicado em fevereiro de 2026 no Scandinavian Journal of Trauma, Resuscitation and Emergency Medicine trouxe exatamente essa reflexão: a analgesia deve começar ainda na cena.
O texto defende que tratar a dor não é opcional nem secundário — é parte central do cuidado.
A dor intensa não controlada pode aumentar resposta inflamatória, prolongar sofrimento e impactar a memória emocional do evento traumático.
Ou seja:
Cuidar da dor melhora não apenas o momento.
Melhora o desfecho.
Dor, qualidade de vida e memória do trauma
Meses depois daquele acidente de carnaval, soube que a família estava bem.
Mas o que mais me marcou foi o relato da mãe:
“Eu lembro do acidente… mas também lembro quando vocês disseram que iam aliviar minha dor. Aquilo me deu segurança.”
Essa frase resume tudo.
O trauma pode deixar cicatrizes físicas.
Mas a forma como somos cuidados deixa marcas emocionais.
Quando a dor é tratada cedo:
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O medo diminui.
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A confiança aumenta.
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O estresse reduz.
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A experiência se torna menos traumática.
Isso impacta qualidade de vida.
E qualidade de vida começa nos primeiros minutos de atendimento.
Tratar a dor é prioridade. Sempre.
Hoje, carrego uma filosofia clara em cada atendimento:
Salvar vidas é essencial.
Mas aliviar sofrimento também é.
Não são escolhas opostas.
São partes complementares do cuidado.
Tratar a causa é obrigatório.
Aliviar a dor é indispensável.
Porque dor intensa não é apenas desconforto.
É risco.
É sobrecarga.
É sofrimento evitável.
E nenhum paciente deve suportar sofrimento desnecessário enquanto está sob nossos cuidados.
Tratar a dor é prioridade.
Referência : Carenzo, L., Rehn, M. & Dünser, M.W. Pain first: rethinking early analgesia in emergency trauma care. Scand J Trauma Resusc Emerg Med 34, 35 (2026). https://doi.org/10.1186/s13049-026-01571-y
